18/03/2012

Aliados do governo pedem a cabeça de Ideli e fingem desconhecer que é Dilma quem manda


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Na época em que a psicanálise ainda era novidade, o mundo imaginou ter descoberto a culpada de todas as neuroses e angústias. A culpada de tudo era a mãe. Com o passar do tempo, percebeu-se que não era bem assim. Mas a mãe jamais se livrou completamente da má fama.
Mergulhados em crise existencial, os apoiadores do governo realizam no Congresso uma espécie de psicanálise de grupo. Em todas as rodas ficou fácil identificar os políticos governistas. São aqueles que estão falando mal da ministra Ideli Salvatti, coordenadora política do Planalto.
Generalizaram-se no Legislativo as críticas à ex-senadora do PT catarinense. Nove meses depois de assumir a pasta das Relações Institucionais, Ideli tornou-se a culpada de tudo. Os partidos da coalizão inauguraram um movimento subterrâneo cujo objetivo é levar o escalpo da ministra à bandeja.
Ideli é politicamente inábil, dizem os críticos mais amenos. Ela é tosca, desastrada e arrogante, afirmam os mais ácidos. Em comum, o mesmo imutável diagnóstico: aos olhos dos membros do condomínio, a desarticulação que envenena as relações do governo com seus aliados traz as digitais de Ideli.
A psicanálise dos congressistas precisa ser analisada. Nos descaminhos que levaram aos abismos da alma, perdeu-se o essencial: acima de Ideli está Dilma Rousseff. A ministra pode ser inábil, tosca, desastrada e arrogante. Sua passagem pelo Senado a fez merecedora de alguns desses adjetivos. Mas, no Planalto, ela não faz senão ecoar a presidente da República, mãe de todas as ordens.
Cândido Vaccarezza e Romero Jucá, os líderes que Dilma afastou na Câmara e no Senado, viviam às turras com Ideli. Imaginando-se em litígio com a ministra, desentendiam-se com Dilma. Rodaram porque a dona da caneta já não se julgava representada pela dupla.
Eduardo Braga mal assumiu a liderança do governo no Senado e já levou Ideli à caderneta. Em privado, responsabiliza a ministra pelo “rompimento” dos sete senadores do PR com o governo. Sem avisá-lo, Ideli reuniu-se no Planalto com Blairo Maggi, o líder do PR.
A ministra reafirmou ao senador que seu partido não teria de volta o Ministério dos Transportes. Quando muito, ganharia duas posições de terceiro escalão. Desatendido, o PR apimentou a chantagem. Ameaça despejar sua revolta em requerimentos de CPIs, em votações nas comissões temáticas do Senado e, no limite, até no painel eletrônico do plenário do Senado.
Eduardo Braga acha que, não fosse a interferência de Ideli, ele teria como pacificar a tribo dos peérres. Bobagem. Ideli reiterou a negative ao PR porque Dilma mandou que ela procedesse fassim. Do mesmo modo que determinou a Braga que deixasse claro que a retórica da extorsão não levará à reabertura da negociação.
Há três dias, José Sarney voou de Brasília para São Bernardo do Campo. Foi visitar Lula. Em conversa telefônica com um amigo do PT, na tarde deste sábado (17), o ex-soberano declarou-se preocupado com o quadro de desagragação que pintou o presidente do Senado.
O nome de Ideli foi mencionado no diálogo, dessa vez associado ao da ministra Gleisi Hoffmann (CasaCivil). Com tais companhias, Dilma estaria politicamente mal assessorada. Juntas, Ideli e Gleisi não valeriam meio Antonio Palocci. Ora, quem é a mãe das nomeações?
Na Câmara, atribuem-se também a Ideli os “desacertos” que podem custar ao governo uma nova derrota, já nesta semana. A encrenca envolve o Código Florestal. Vai a voto um texto aprovado pelos senadores. Coisa muito próxima do ideal, na avaliação de Dilma.
Ideli informou aos líderes: o Planalto não admite alterações no texto. Por mal dos pecados, a grossa maioria dos deputados quer reescrever o Código. Num surto que perpassa quase todas as legendas –do PCdoB ao PMDB— forma-se uma maioria ao redor dos 400 votos a favor de um texto mais agropecuário do que ambientalista.
“Não há liderança capaz de modificar esse quadro”, diz Henrique Eduardo Alves, o líder do PMDB. “Se Jesus Cristo descesse na Câmara e pedisse a manutenção do texto do Senado, perderia.” Ao fincar o pé, negando-se a negociar alternativas, dizem todos os líderes, Ideli faz do governo um potencial derrotado.
De novo, fala-se do assessório fingindo desconhecer o essencial: Ideli endurece seu lero-lero sobre o Código porque Dilma quer assim. Pressentindo a derrota, a ministra passou a pregar o adiamento da votação para depois da Rio+20, em junho. Só um maluco ingênuo imaginaria que Ideli expressa uma opinião pessoal.
Em sua versão mais mercantil, a pregação anti-Ideli inclui queixas menos sutis. A ministra é acusada de não entregar as verbas e os cargos no volume desejado. Tergiversação. A ministra gerencia o balcão. Mas é Dilma quem guarda a chave do almoxarifado. É a presidente também quem manuseia a caneta.
Cotinuidade dos oito anos que vieram antes, o governo atual vive uma fase paradoxal. Há 15 meses, o “novo” Planalto guiava-se por um ego à Lula, fino respeitador das convenções arcaicas. De repente, passou a ser cutucado por um Id à Dilma, rude e tardio contestador das velhas tradições.
Nesse cenário, Ideli está longe, muito longe do epicentro da terapia. Melhor tentar psicanalisar Dilma. Qual uma Freud pós-moderna, ela desbrava regiões ocultas da mente dos seus apoiadores em busca de uma mágica. Até aqui, tal como seus antecessores, Dilma tirou coelho$ da cartola. Agora, quer tirar cartolas do coelho.

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