05/02/2012

Dilemas da diplomacia


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Para veterano do Itamaraty, talvez não tenha sido este o melhor momento de Dilma iniciar sua performance presidencial na ilha de Fidel e Raúl

Marcos Azambuja
Teria sido melhor se a presidente da República não tivesse ido agora a Cuba. Criou-se, para ela, uma situação para a qual mesmo a mais atenta diplomacia não encontraria uma solução satisfatória.
No Palácio da Revolução, Dilma passou em revista a tropa cubana - Wilson Pedrosa/AE
Wilson Pedrosa/AE
No Palácio da Revolução, Dilma passou em revista a tropa cubana
Como chefe de uma das grandes democracias mundiais, Dilma Rousseff fala e age com a legitimidade de quem chegou ao poder pela vontade do povo e com prazos definidos - medida sua vitória com a exatidão e a transparência dos votos bem contados -, e seu compromisso com a defesa dos direitos humanos tem sido reafirmado, com clareza, em diversas ocasiões.
Por outro lado, as etapas iniciais de sua trajetória política e as alianças que foram tecidas em sua volta por seus correligionários e aliados a colocam em uma posição em que uma medida de fidelidade, ou pelo menos de ampla tolerância, com o regime cubano é incontornável.
Não era possível, assim, que chegasse ao aeroporto José Martí, em Havana, e ali fizesse declarações que representassem uma censura pública às práticas do governo local no terreno dos direitos humanos e à vocação desse regime para eternizar-se no poder, o que já acontece há 52 anos. Não seria realista esperar que isso pudesse acontecer.
Não me parece impróprio que enviemos, com a frequência que se fizer necessária, missões de alto nível a Cuba. Identifico ali importantes interesses econômicos e comerciais brasileiros e não é difícil ver as oportunidades que se oferecem para que algumas de nossas grandes empresas consolidem e ampliem sua presença na ilha. Ajudá-las é um objetivo que se justifica com naturalidade e que faz parte das regras aceitas do jogo internacional.
Teria sido apropriado, no entanto, não colocar Cuba agora no circuito da nossa diplomacia presidencial, atividade em que os nossos três governantes mais recentes atuaram quase sempre com propriedade e sucesso. Para promover interesses econômicos temos, dentro da nossa frondosa orquestra ministerial, vários titulares de pastas que sem qualquer problema podem ser mobilizados para agir na promoção de nossos interesses setoriais e específicos.
O objetivo deveria ser o de preservar nossos governantes, hoje cercados de grande prestígio e visibilidade internacionais, de visitas e encontros com interlocutores que pretenderiam aproveitar o momento de sua presença para obter uma visibilidade e uma credibilidade que normalmente estariam fora de seu alcance. Na sua mais recente visita à America Latina, Ahmadinejad já não colocou Brasília em seu roteiro, e essa exclusão foi interpretada internacionalmente como um sinal de que a presidente do Brasil pretende manter umas distância mais prudente do líder iraniano.
Houve tempo - e isso faz pouco tempo - em que nossos governantes viajavam para buscar empréstimos. Hoje, em vários casos, somos nós que fazemos empréstimos financeiros e, em uma outra dimensão da palavra, são os nossos mandatários que emprestam seu prestígio a governos e governantes desacreditados.
A visita a Cuba poderia ter sido realizada sem a presença da presidente Dilma Rousseff , que ficou inibida de dizer aquilo em que acredita e que corresponde à nossa adesão, não questionada, a valores universais que são desrespeitados pelo regime cubano.
Fez, ao contrário, e sem hesitação, uma condenação veemente da infâmia que tem sido a prisão de supostos terroristas na base de Guantánamo, enjaulados há vários anos, em muitos casos sem qualquer julgamento, o que constitui uma violação flagrante de seus direitos e uma mancha na reputação dos Estados Unidos.
A crítica ao que acontece em Guantánamo teria tido mais repercussão e seria mais equilibrada se fosse acompanhada de uma condenação não menos veemente a um governo autoritário e de um só partido, como é o cubano, e que controla, entre outras coisas, a liberdade de ir e vir de seus cidadãos.
O início ao mesmo o tempo romântico e heroico da revolução cubana deixou no Brasil uma reserva de afeição e uma imagem libertária que mais de meio século de uso abusivo do poder e a correspondente supressão das liberdades civis não conseguiram completamente erodir.
Sem a legitimidade que só a governança democrática confere e com uma longa história de desacertos na gestão da economia, o que o governo cubano soube cultivar foi a ideia de que sua legitimidade vem da resistência tenaz às ameaças políticas e ao bloqueio econômico dos Estados Unidos. Não existiria, assim, uma Cuba vista em si mesma, mas sim e essencialmente o imaginado baluarte contra os Estados Unidos. Não se é, a rigor, pró-cubano, mas sim e furiosamente antiamericano.
Talvez isso fique mais claro ao nos darmos conta de que não há entre nós e de maneira expressiva um culto à antiga União Soviética nem à China maoísta, matrizes da Cuba atual, mas o apoio ao esclerosado regime cubano perdura intacto e sempre na medida, que é essencialmente um símbolo da hostilidade a Washington.
A lição a aprender é que, em diplomacia, muitas vezes a escolha de um itinerário errado determina, mesmo antes de uma viagem, o que provavelmente vai acontecer. Não se vai a Teerã impunemente. Prestigiar Chaves em Caracas tem seus riscos. Uma visita a Cuba tem seu preço. Nesses como em outros casos trata-se de países à espreita de visitantes qualificados para fazer pagar, direta ou indiretamente, um tributo às políticas falidas que representam.
MARCOS AZAMBUJA É EMBAIXADOR, EX-CHEFE DA DELEGAÇÃO DO BRASIL PARA ASSUNTOS DE DESARMAMENTO E ATUAL VICE-PRESIDENTE DO CENTRO BRASILEIRO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

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