29/01/2012

Brasília passou pela mesma 'higienização covarde' que Pinheirinho, diz vencedor da mostra de Tiradentes


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MATHEUS MAGENTA
ENVIADO ESPECIAL A TIRADENTES (MG)

O documentário "A Cidade é uma Só?", de Adirley Queirós, venceu neste sábado (28) o prêmio do júri da mostra competitiva Aurora do festival de cinema de Tiradentes. O filme, que mistura personagens reais e fictícios, fala sobre a retirada de moradores de invasões em Brasília nos anos 1970 e a consequente especulação imobiliária na região.

Para o diretor do filme, o processo de retirada dos operários e familiares que passaram a morar em invasões durante a construção de Brasília é semelhante ao cumprimento da reintegração de posse de uma área conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), no último dia 22.

"Se meu filme tem alguma relação com eventos recentes, é com Pinheirinho. Brasília passou pela mesma higienização covarde que Pinheirinho. Lá, as pessoas foram jogadas na rua e surgiram lugares como a Ceilândia", disse o cineasta à Folha, após a premiação.

Para ele, a ação policial em SP que resultou em conflito com parte das 700 famílias que viviam no local "só faltou jogar álcool e queimar os moradores".

Realizado a partir de um edital para filmes que tratassem dos 50 anos de Brasília, o documentário de Adirley Queirós aborda a CEI (Campanha da Erradicação de Invasões) promovida na capital federal nos anos 1970.

A sigla que acabou se tornando parte do nome que se deu à área: Ceilândia. Uma das personagens do documentário, Nancy Araújo, participou da gravação do jingle da CEI, que se chamava "A Cidade é uma Só".

O longa aborda também a especulação imobiliária na região (Brasília e cidades-satélite) desde a construção da capital federal.

PREMIADOS

Os documentários "HU", de Pedro Urano e Joana Traub Csekö, e "O Mineiro e o Queijo", de Helvécio Ratton, receberam os prêmios do júri jovem e do público da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes, respectivamente.

O primeiro fala sobre o prédio do hospital universitário da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), enquanto que o filme de Ratton trata de queijos artesanais de Minas Gerais que não podem ser vendidos no resto do país devido a leis higienistas.

Entre os curtas, "Quando Morremos à Noite", de Eduardo Morotó, venceu o prêmio do júri da mostra Foco e "L", de Thais Fujinaga, recebeu o prêmio do público.

Ao longo de nove dias, o festival de Tiradentes exibiu 116 filmes e recebeu um público de cerca de 35 mil pessoas, segundo estimativa dos organizadores do evento.

O repórter viajou a convite da organização do festival.

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