18/11/2011

“Somos siamesas”, diz uruguaia que dividiu cela com Dilma


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Em entrevista exclusiva ao site de VEJA, Maria Cristina de Castro conta detalhes da época em que foi torturada ao lado da agora presidente da República

Luciana Marques
A presidente Dilma Rousseff em evento em Brasília
A presidente Dilma Rousseff em evento em Brasília (Fernando Bizerra Jr./EFE )
Até hoje a presidente Dilma Rousseff chama Maria Cristina de Castro de “Tupamara”. O apelido vem da época em que as duas dividiram uma cela do presídio Tiradentes, em São Paulo, na década de 1970, durante a ditadura militar. É uma referência aos Tupamaros, grupo guerrilheiro que atuava no Uruguai, de onde Cristina havia fugido. Tupamara, agora naturalizada brasileira, foi convidada de honra de Dilma na cerimônia de sanção da Comissão da Verdade,realizada nesta sexta-feira no Palácio do Planalto.
Atualmente ela é coordenadora de julgamento e finalização de arquivo da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Cristina também trabalhou como analista de sistemas no Ministério de Minas e Energia - quando Dilma chefiava a pasta -, onde criou alguns constrangimentos. Primeiro, levou uma bronca de Dilma por não conseguir resolver um simples problema na impressora. Depois, foi acusada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) de realizar um contrato sem licitação e repleto de irregularidades para modernizar a área de informática da pasta. Reportagem de VEJA de outubro de 2010 mostrou que o prejuízo ao erário chegaria a 5 milhões de reais.
Acervo pessoal
Maria Cristina de Castro, de blusa vermelha, participa de manifestação no Chile em 1973
Maria Cristina, de blusa vermelha, participa de protesto no Chile em 1973
Nesta entrevista exclusiva ao site de VEJA, Cristina conta, em português mas ainda com forte sotaque, histórias da época em que foi torturada com Dilma e fala de suas impressões sobre a criação da Comissão da Verdade.
Que diferença a Comissão da Verdade faz para os presos políticos? Alguns especulam que a Comissão da Verdade será uma caça às bruxas, outros especulam que não vai fazer nada. Mas é o próximo passo constituir um grupo de notáveis que se debrucem sobre os elementos históricos e que tornem isso público. Estou, como dizem no Brasil, feliz como um pinto lixo, no lugar que queria estar há muitos anos.
Como é trabalhar com Dilma? Aquilo que falam que ela é rigorosa é verdade. Ah, sim. Vou contar um episódio interessante, mas ela vai me bater depois. Eu era responsável pelo planejamento estratégico de informática no Ministério de Minas e Energia, em 2003, e encontramos um caos na rede, que não funcionava. Os equipamentos eram precários e Dilma tinha urgência em usar os recursos de informática. Em um determinado dia, Dilma quis imprimir algo e me chamou porque não conseguia. Não encontrei uma solução. Só sei que saí da sala andando para trás, com Dilma diante de mim. Eu só dizia: “Sim, ministra, sim, ministra, tudo bem, ministra”. Eu digo que apanhei, mas não posso repetir aqui o diálogo porque tenho medo de ser demitida por justa causa.
Dilma é muito exigente? Ela tem profundo respeito pelo nosso trabalho e, por isso, se dá o direito de cobrar. Ninguém é obrigado a aceitar um contrato de trabalho, mas, se aceitou, o compromisso com a gestão tem que ter resposta.
Qual sua relação com a presidente? Sou suspeita para falar, mas Dilma é a pessoa mais coerente que já conheci. Não que ela seja a mesma nesses anos todos, porque a vida nos muda. Mas aquela passagem pela cadeia nos tornou irmãs siamesas. Há uma confiança natural mútua. Quando ela fala, já sei o que vai dizer.
Como ela era na cadeia? Ela era a comandante das celas, porque tinha grande liderança. Quando a gente era torturada, ela organizava as gritarias dos presos. Quando a gente voltava da tortura, ela organizava a recepção e me dava sopinha na boca. A parte humana e solidária dela aparecia muito mais do que agora que está envolvida em uma gestão pública. 
Dilma usou armas durante o regime militar? Tudo o que se fala na imprensa é o que eu sei da boca dela. Acredito no que ela fala: que ela não usou armas. Por não concordar com a luta armada, ela teria tido várias brigas com o Carlos Lamarca, que era da mesma organização. Mas, na prisão, falávamos muito pouco sobre nossas vidas. As paredes ouviam, então não havia como fazer confidências políticas.
Como vocês se comunicavam então? Havia várias celas em um corredor comum, onde havia uma caixinha com areia para cuidar de um gato que transitava por lá. Nós tínhamos encontrado o gatinho e o chamávamos de Brutus. A cama do gato era onde guardávamos papeis para nos comunicarmos entre uma cela e outra. Também tinha uma caminha para uma tartaruga. Como era um lugar com detritos e com o qual ninguém se importava, era nossa caixa de correio. Tudo isso pensado e organizado com o rigor que até hoje Dilma tem. Ela tinha a consciência de que estávamos enfrentando um perigo muito forte. Ela tem hoje essa mesma figura, os mesmos dons, o mesmo perfil.
Pode citar um dom da presidente? Não acreditem se ela falar que é uma boa cozinheira. Não é. Na televisão é, mas na cadeia a gente comia pão com mortadela quando ela cozinhava. 
Cristiano Mariz
Maria Cristina de Castro
A uruguaia Maria Cristina de Castro
Como foi o reencontro com Dilma após a prisão? Nos encontramos na torre do Tiradentes, em 1972, e ela vestia um moletom azul, óculos grandes de grau e tinha aquele cabelo todo enrolado. Foi uma emoção muito forte. Nos vimos em 2000 no Rio Grande do Sul e depois ela me chamou para participar da transição do primeiro governo Lula porque eu tinha especialidade em informática. 

A senhora conversa com Dilma com frequência? 
Claro que a presidente da República não está disponível para mim quando quero. Para falar de trabalho, só quando ela chama. Pessoalmente, ela é minha irmã do peito. Até hoje ela me chama de Tupamara.

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