12/10/2011

Na Sé, militantes perguntam a Dilma: ‘Por que proteger torturadores e assassinos?’


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Jair Stangler, do Estadão.com.br
Integrantes do Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça fizeram na manhã desta quarta-feira, 12, em frente à Catedral da Sé, em São Paulo, mais uma manifestação criticando o projeto de lei que cria a Comissão da Verdade e está em tramitação no Congresso. O grupo quer que o projeto abra a possibilidade de punição a torturadores e assassinos que atuaram durante a ditadura militar e pede também a abertura imediata dos arquivos dos anos de chumbo.
Foi o segundo ato do tipo que o grupo promoveu em apenas duas semanas. A primeira manifestação, realizada no dia 30 de setembro, no vão livre do Masp, também em São Paulo. Naquele dia, cerca de 80 pessoas entre familiares de mortos e desaparecidos na ditadura e representantes dos direitos humanos caminharam até o escritório da Presidência da República, na esquina da Avenida Paulista com a rua Augusta e entregaram à chefe do gabinete, Rosemeyre Noronha, um manifesto endereçado à presidente Dilma Rousseff. Entre os presentes, estava a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), autora de um projeto mais amplo.
O protesto desta quarta-feira teve apenas quatro participantes. Os quatro revezaram-se para panfletar e segurar a faixa que questiona a presidente Dilma:  ”Por que proteger torturadores e assassinos?”
Um dos integrantes do Comitê, o jornalista Antonio Carlos Fon, que também foi preso político, acredita que a presidente Dilma, pessoalmente, gostaria de fazer um projeto de Comissão da Verdade como a que o grupo defende. Até por também ter sido vítima da ditadura. Mas para isso, entende, a proposta precisa de apoio popular, como aconteceu na Argentina e no Chile, países que fizeram suas Comissões e puniram quem tenha sido considerado criminoso.
Questionado sobre a baixa presença de militantes, Fon aponta algumas razões. Entre elas, que há uma divisão na esquerda entre os que aceitam o projeto em tramitação e os que querem uma Comissão mais efetiva. Entidades como a UNE, por exemplo, teriam sido cooptadas pelo governo.
Outro motivo, afirma, é que muitos militantes ocupam cargos no governo e não querem abrir mão disso. Ele também aponta razões pessoais para isso – muitos podem temer que a exposição de seus depoimentos venha a qualificá-los como delatores.
Fon cita ainda o fato de que a Comissão deverá dar destaque à Guerrilha do Araguaia. Para ele, seria incômodo investigar o DOI-Codi (órgão responsável pela repressão à guerrilha urbana), onde foram registrados diversos casos de tortura, porque essa organização era financiada por empresas importantes e pelas oligarquias da época.
Já a estudante de Belas Artes Cândida, 20, tem uma explicação mais prosaica para a ausência de público.  ”Organizamos meio às pressas. Decidimos na segunda, tinha muita gente que achava que iríamos para Aparecida hoje. Acho que no ato do dia 15 deve ir mais gente”, conta.  Cândida é neta de Heleni Guariba, que pertencia à VAR-Palmares, mesma organização política de Dilma. Mas, segundo ela, isso não influenciou tanto na decisão de ajudar no Comitê. “Participo porque acho que a causa é justa”, afirma.

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