16/10/2011


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Gabriel Castro
O ministro do Esporte, Orlando Silva: conversa difícil com a presidente
O ministro do Esporte, Orlando Silva: conversa difícil com a presidente (Vanessa Carvalho/AE)
Ao saber das revelações de VEJA sobre o ministro Orlando Silva, do Esporte, a presidente Dilma Rousseff telefonou para o subordinado. A conversa se deu ainda na noite de sexta-feira. A petista cobrou explicações de Silva, que adotou a estratégia de desqualificar os denunciantes. Dilma perguntou se o ministro está seguro de que não participou de nenhuma irregularidade. Ouviu uma resposta positiva. Em vez de afastar o comunista do cargo, a comandante decidiu ter cautela: "A verdade se impõe", teria dito a presidente.
O procedimento é parecido com o adotado antes da queda de outros quatro ministros neste ano. Mas, numa comparação fria, Orlando Silva está mais para Pedro Novais do que para Antonio Palocci: a indicação dele ao cargo não saiu da própria presidente. O integrante do PC do B, nomeado ainda no governo Lula, ficou no cargo por inércia, quando poucos apostavam em sua permanência. Além disso, pesa o desgaste que o ministro tem sofrido nos últimos meses, com as falhas na organização da Copa do Mundo de 2014. Por isso, há quem aposte que o cargo ficará vago nos próximos dias: "Uma cabeça deve rolar nesta semana", aposta o líder tucano no Senado, Alvaro Dias (PR) .
Outro fator pode jogar contra o comandante do Esporte: em episódios anteriores, especialmente nos casos de Alfredo Nascimento, dos Transportes, e Pedro Novais, do Turismo, a postura dúbia de Dilma lhe rendeu dividendos políticos: a presidente, oficialmente, não demitiu ninguém. Aguardou os subordinados caírem sozinhos, quando a situação se tornou insustentável. Mas, para a opinião pública, ficou a imagem da propalada "faxina ética" do governo. Se Orlando Silva (mais uma parte da herança maldita do governo Lula) cair, o mito da presidente implacável com a corrupção deve ganhar força.
Reação - Diante do surgimento de graves revelações sobre o ministro do Esporte, a oposição deve reagir. E o roteiro não será surpresa, já que houve outros precedentes no governo Dilma: pedir que o Ministério Público Federal investigue o caso e tentar levar o ministro para depor no Congresso. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Corrupção, longe de sair do papel, também deve retornar à pauta. Mas, ao menos para os tucanos, o escândalo, somado às passeatas recentes contra a corrupção, podem dar novo fôlego a algumas bandeiras éticas.
Neste sábado, DEM emitiu uma nota pedindo a exoneração imediata do ministro. E foi além: "A demissão de Orlando Silva não é o bastante. Polícia Federal, Procuradoria Geral da República e Tribunal de Contas da União precisam investigar a fundo esse esquema no Ministério do Esporte", afirma, no  texto, o líder da bancada do partido na Câmara, ACM Neto (BA). 
O PPS vai pedir, já nesta segunda-feira, que a Procuradoria-Geral da República investigue o caso. "Mas o governo não faz isso e aí temos que ir ao Ministério Público para cobrar o que tem que ser cobrado. Seria o caso de o governo chamar a sociedade e dizer que nao vai mais tolerar isso. Que, em caso de denúncia, vai afastar quem quer que seja", diz o líder do partido na Câmara, Rubens Bueno (PR).
Para Alvaro Dias, o caminho passa pela Justiça. "Vamos dar desdobramento à denúncia e convocar a autoridade judiciária responsável pela instauracao do inquérito a fim de buscar a responsabilizacao civil e criminal", afirma. O PSDB também pedirá a convocação de Orlando Silva na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado. Se o governo repetir o procedimento que usou nos últimos casos, vai aceitar a ida do ministro ao Parlamento desde que a convocação seja transformada em convite.
Clima - Alvaro Dias também acredita que a nova denúncia, somada às passeatas recentes pedindo o fim da corrupção no país, criam um clima favorável à votação de propostas do gênero, como projeto que transforma a corrupção em crime hediondo, que já tramita no Congresso. Para o líder, as revelações trazidas por VEJA só mostram que, mesmo com a tática governista de esfriar os escândalos, os casos acabam voltando à tona mais cedo ou mais tarde. Para ele, a pressão popular pela ética na política pode ganhar corpo nos próximos dias.
"Na CPI dos bingos, houve uma blindagem incrível. O relator era o senador Inácio Arruda, do PC do B. Não  tivemos condicoes de aprofundar a investigacao no Ministério dos Esportes", lembra Alvaro Dias, em referência à comissão que investigou fraudes na pasta durante o governo Lula. "Eles apostam no esquecimento. E o que é pior: reconduzem o ministro ao cargo.  É evidente que um dia a casa cai", aponta o senador. Embora a tarefa seja hercúlea, ele também deve retomar a coleta de assinturas para a criação da CPI da Corrupção no Congresso.
Rubens Bueno também se queixa da forma como o governo mobiliza sua maioria folgada no Congresso para abafar casos de corrupção. O representante do PPS diz, por exemplo, que já não acredita que a convocação do ministro vá resolver algum problema: "Eu até posso pedir, para ter algum efeito. Mas esse negócio de levar o ministro na Câmara é um horror. Eles botam uma média de quatro deputados por um contra nós e conduzem tudo", diz o parlamentar.
Esquema - A edição de VEJA que chegou às bancas neste sábado mostra como João Dias Ferreira, policial e militante do PC do B em Brasília, acusa Orlando Silva de coordenar um esquema milionário de desvios em convênios com Organizações não-governamentais (ONGs). Para receber o valor a que tinham direito, as entidades precisavam pagar 20% do valor em questão a integrantes da pasta.
João Dias, que chegou a ser preso durante uma operação que descobriu desvios no ministério durante o governo Lula, também acusa Orlando Silva de  ter recebido uma caixa repleta de dinheiro vivo, originário do esquema. A maior parte dos recursos desviados teria sido usada para cobrir gastos de campanha do PC do B - inclusive despesas com a coalização que, em 2006, levou Luiz Inácio Lula da Silva ao poder.
Apesar de sua assessoria ter sido procurada na quinta-feira por VEJA, só após o fechamento da revista, na noite de sexta-feira, é que Orlando Silva fez contato com a reportagem.
O ministro se disse "chocado". Afirmou que sabia das ameaças do policial há algum tempo. “Durante um ano esse sujeito procurou gente do ministério e fez ameaça, insinuação. E qual foi a nossa posição? Amigo, denuncie, fale o que você quiser. Por quê? Porque como nós temos convicção de que o que foi feito foi o correto, nós não tememos. E falávamos para ele: não nos interessa. Ele falava que existia um dossiê, que ia denunciar... A resposta era: faça, procure o Ministério Público, a polícia, a justiça, faça o que você quiser fazer”, afirmou.

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