20/09/2011

Lula já percebeu que a eleição em São Paulo será decidida à direita. E seus adversários? Terão percebido a natureza do jogo?


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Dono de uma ignorância que chega quase a comover, Lula é. Mas burro? De jeito nenhum! Se não fosse preguiçoso, poderia ter aliado cultura à sua notável inteligência. E sabe ser autoritário como poucos, ou como ninguém, na política brasileira. Leiam o que segue abaixo. Volto em seguida.
Para Lula, nome novo e alianças podem garantir vitória do PT em SP em 2012
Por Tiago Décimo, no Estadão Online:
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que gostaria que seu partido “inovasse” na escolha do candidato à Prefeitura de São Paulo. “Eu defendo a tese de que é importante que a gente comece a lançar pessoas novas nas eleições”, afirmou nesta terça-feira, 20, em Salvador, onde recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Lula destacou ainda a importância de formar alianças fortes com outros partidos e encontrar um vice como José Alencar. “Vale para São Paulo o que valeu para mim”, disse ao se lembrar da coligação de sua candidatura à presidência.
“Para mim, se for a Marta Suplicy, se for o Jilmar Tatto, se for o (Carlos) Zarattini, eu vou estar na rua fazendo campanha, mas eu gostaria que o PT inovasse.” Segundo o ex-presidente, apesar de a senadora e pré-candidata Marta Suplicy aparecer com 30% nas pesquisas de intenção de voto, o montante não é suficiente para garantir favoritismo na escolha do candidato do partido. “A Marta sempre será uma forte candidata, ninguém pode dizer que alguém que começa a corrida com 30% é fraca, mas nós sempre tivemos 30% dos votos em São Paulo”, disse. “Nós ganhamos com a Luíza Erundina em 1988 com 30%, nós ganhamos com a Marta com 30%, depois nós perdemos com a Marta e com o Aloísio Mercandante, com 30%. Então o PT tem 30% em São Paulo quem quer que seja o candidato.”
Para Lula, a formação de alianças políticas deve determinar uma possível vitória de seu partido na capital paulista. “Minha tese é que nós precisamos construir os outros 20%”, avalia. “Nós precisamos encontrar o nosso José Alencar da capital, em uma composição política com outros partidos que possam dar os 20% de votos que nós precisamos.”
VolteiColoquem depois, se quiserem, na área de procura do blog as palavras “PT, três terços, petista, antipetista” (sem aspas e vírgulas) ou joguem todas elas no Google associadas a meu nome, e vocês verão quantos artigos já escrevi tratando justamente da teoria dos… três terços. Que não vale só para São Paulo, não. Pode valer para o Brasil. Um terço do eleitorado votará sempre no PT. É a turma da esquerda e congêneres — “congêneres de esquerda” são os incompetentes que consideram que a culpa da sua incompetência é sempre alheia; vota no PT na esperança de que a vida de sue inimigos piore…. Os mais radicais migram para esquisitices como PSOL, PSTU etc, mas será sempre um voto marginal, que se situa no extremo da banda esquerdista. Um terço tende a votar contra o PT: ou repudia a esquerda (a minoria, que se identifica com a direita) ou não gosta (a maioria) da parolagem petista e já percebeu que essa gente não fala o que pratica e não pratica o que fala.
Quem define a eleição é o outro terço, os que não são ideologicamente posicionados — sim, os pobres e muito pobres estão nesse grupo; daí que o Bolsa Família, organizado como clientela, tenha um peso importante na eleição. O mapa eleitoral o demonstra. A disputa sempre se dará neste terço que é, em princípio, neutro. A balança penderá, por óbvio, para onde ele for.
E aí está uma das razões das sucessivas derrotas presidenciais. Ai daquele que enfrentar Lula tentando granjear simpatias à esquerda, buscando mimetizar o discurso petista! Vai quebrar a cara. Em São Paulo ao menos, os adversários do PT não têm cometido esse erro. E é importante que não cometam. Lula quer Fernando Haddad como candidato porque, embora ele seja, digamos, ideologicamente mais preparado do que Marta Suplicy, não traz o peso do petismo militante, que ela, mesmo vinda da Dona Zelite, carrega. Mais: notem a insistência de Lula em ter um vice com um perfil mais conservador, um “José Alencar” municipal — o nome dos sonhos, evidentemente, é Gabriel Chalita… A mistura beira o enjoativo — é muto gugu-dadá numa chapa só! —, mas pode funcionar.
ATENÇÃO: LULA PERCEBEU QUE A DISPUTA EM SÃO PAULO VAI SER DECIDIDA À DIREITA. Sim, será preciso acenar com todos aqueles programas disso e daquilo, com muitas maquetes, aquele showroom de empreiteiras que marca todas as disputas eleitorais Brasil afora. Mas a disputa vai se decidir mesmo, como se tem decidido, é na guerra de valores. Só para não deixar solto um fio que enunciei acima: isso que a esquerda chama “povo”, mesmo os que são presas hoje do assistencialismo, tem um perfil conservador.
Lula notou que é mais fácil construir uma candidatura com essas características partindo do quase zero do que remodelar a imagem de Marta Suplicy. E, nesse particular, do seu ponto de vista, tem mesmo razão. Os petistas vêm para tomar os votos conservadores de seus adversários. Podem apostar: há uma chance de a campanha petista falar uma linguagem mais à direita do que a de qualquer um de seus adversários. Em 2002, mesmo com todo aquele emocionalismo de Duda Mendonça, a sintaxe era de esquerda. Em 2006, já não era mais. A campanha de Dilma em 2010 foi verdadeiramente conservadora. No mundo inteiro, partido que disputa a eleição centrado na plataforma do consumo e na conquista de bens materiais está deixando de lado a utopia esquerdopata.
Um terço votará contra o PT, e um terço votará a favor. Que discurso os adversários do partido farão para não permitir que o outro terço caminhe para os braços do inimigo? Se resolverem vir com patacoada esquerdizante, falando a linguagem do “social”, podem esquecer! O PT é uma espécie de monopolista desse esperancismo oco. Não se ganham 10 votos assim. Os petistas tentarão se comportar como conservadores críveis. A falácia terá de ser desmontada. De todo modo, para a tristeza de esquerdistas sérios (ou melhor: que levam a sua ideologia a sério), os valores considerados de direita definirão o jogo.
AutoritárioLula comanda mesmo um partido que é uma caricatura circense do velho bolchevismo e seu centralismo democrático. Vejam com que ligeireza ele descarta Marta Suplicy e defende o novo, como se pudesse haver algo mais velho do que o dono da legenda decidir, como ele está fazendo, quem será e quem não será candidato.
Imaginem se derrota fosse critério para não mais disputar eleição. O Babalorixá perdeu uma para o governo de São Paulo e três para a Presidência. Sem cargo, continua dono do partido. Em matéria de Lula, Lula não pensa em renovação.
Por Reinaldo Azevedo

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