27/08/2011

Chantagem internacional


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O Equador descobre uma fortuna em petróleo debaixo de uma das florestas mais ricas do planeta e faz proposta inusitada à comunidade internacional:se os países ricos pagarem, o oásis seguirá intocado

Larissa Veloso
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PARAÍSO
Turistas passeiam em canoa no Parque Nacional
Yasuní, um dos últimos biomas intocados pelo homem
Encontrar uma reserva de quase um bilhão de barris de petróleo é o sonho de qualquer nação. Mas, no caso do Equador, um campo descoberto em 2007 veio acompanhado de um grande obstáculo, uma vez que o recurso está debaixo de uma das florestas mais ricas em biodiversidade do mundo: o Parque Nacional Yasuní (leia quadro). Entre a decisão de explorar o campo Ishpingo Tambococha Tiputini (ITT), destruindo um dos últimos oásis ecológicos intocados pelo homem, ou perder US$ 7,2 bilhões em óleo cru, o país propõe uma terceira alternativa. E assim, pela primeira vez na história moderna, uma nação pode deixar de explorar um recurso natural altamente rentável em benefício da natureza. Mas só se a comunidade internacional pagar para isso.

Em 1989 o Parque Yasuní foi declarado pela Unesco como Reserva Mundial de Biosfera, uma região fundamental para a preservação do ecossistema terrestre. A proposta do Equador é manter a área intacta e ser recompensado por “abrir mão” da riqueza do petróleo em benefício da saúde do planeta. O preço dessa ação seria a metade do valor da reserva, ou US$ 3,6 bilhões, e o compromisso seria reafirmado a cada dois anos até 2024. Como primeiro passo, o país tenta, até o fim de dezembro, arrecadar US$ 100 milhões para viabilizar a iniciativa. Todo o recurso irá para um fundo que será gerido pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Lançada em 2009, a proposta ganhou a simpatia de vários países, mas até o momento ainda faltam US$ 60 milhões. “Foram recebidas várias cartas de apoio da comunidade internacional, mas poucos deram suporte financeiro. A iniciativa vai ser lançada novamente no mês que vem na Assembleia das Nações Unidas e assim esperamos que mais recursos sejam obtidos”, revela a representante da Conservação Internacional no Equador, Veronica Arias. Para ela, a proposta é tão inovadora que muitos países estão esperando que surjam projetos semelhantes para então empenhar seu dinheiro.
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INTOCADOS
O parque Yasuní é o lar dos últimos grupos indígenas que
ainda vivem isolados, como os membros da tribo waorrani
Mas para um dos autores da proposta, o ex-ministro de Energia do Equador, Alberto Acosta, não há desculpas para a demora nas contribuições. “Quando se trata de proteger a vida, as respostas deveriam ser imediatas. Lamentavelmente, não é assim que as coisas acontecem hoje em dia. Os EUA e a Europa levantaram com uma velocidade incrível milhões de dólares e euros para salvar os banqueiros. Se não há a mesma agilidade para atender às demandas da pobreza e da fome, que dirá então para proteger o meio ambiente”, protesta.

Mesmo assim, ele não perde as esperanças. “De qualquer forma, a exploração do campo de ITT terá que ser aprovada pela Assembleia Nacional. E o órgão pode então convocar uma consulta popular. A população equatoriana ainda não se pronunciou sobre essa questão”, defende. O governo do país tem pouco mais de três meses para arrecadar o restante do dinheiro. Se conseguir, abrirá caminho para que outras nações sejam pagas para não explorar seus recursos. Se falhar, será mais uma prova de que o mundo ainda não está disposto a pagar o preço da sustentabilidade.
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